Dean Van Nguyen reconstrói a formação política do rapper a partir dos Panteras Negras e de Afeni Shakur. A edição brasileira sai em novembro.
Em Palavras aos meus camaradas: a história política de Tupac Shakur, o jornalista Dean Van Nguyen reconstrói a formação do rapper a partir dos Panteras Negras e de Afeni Shakur, a mãe. A edição brasileira, da Autonomia Literária e da GLAC edições, tem tradução de Amauri Gonzo, prefácio de Jair Santos Cortecertu e 300 páginas. Custa R$ 84,15 na pré-venda, com entrega prevista ainda para novembro e um pôster.

Tupac Shakur tinha 25 anos no sábado, 7 de setembro de 1996, quando foi baleado em um ataque de carro no cruzamento da Flamingo Road com a Koval Lane, em Las Vegas. Morreu seis dias depois, em 13 de setembro, no University Medical Center of Southern Nevada.
Trinta anos depois, o caso andou em seis semanas. Em 31 de agosto de 2026, um júri de Las Vegas condenou Duane “Keffe D” Davis, 63 anos, por homicídio em primeiro grau com arma letal. Em 13 de outubro, a juíza Carli Kierny fixou a pena em 40 anos a prisão perpétua, segundo as emissoras locais que cobriram a audiência. O advogado dele, Michael Sanft, disse que vai recorrer.
O livro que a Autonomia e a GLAC preparam para novembro lê o rapper por outro caminho: o de onde ele veio.
Dean Van Nguyen é jornalista musical e crítico cultural de Dublin, na Irlanda. Escreve para a Pitchfork, o The Guardian, o Bandcamp Daily e o Jacobin. Estreou em livro em 2019, com um estudo sobre Ghostface Killah, do coletivo norte-americano Wu-Tang Clan. Este é o seu segundo.
Nguyen cresceu ouvindo rap no pátio de um colégio católico só para meninos, no fim dos anos 1990. O método do livro vem da reportagem: ele diz ter procurado gente que quase nunca fora ouvida sobre Tupac, entre ex-Panteras Negras e coadjuvantes de grupos de rap. A editora cita dois nomes, Aaron Dixon, veterano do partido, e Stephen Ashley Blake, diretor de videoclipes, e afirma que muitos entrevistados falam pela primeira vez.
A tese cabe numa linha. A maior parte das análises sobre a política de Tupac para na constatação de que, filho de Panteras, ele trazia de casa a mentalidade do partido. Van Nguyen diz ter escrito para mostrar o que isso significa na prática: quem eram os Panteras Negras, como o movimento funcionava, de que modo aquilo chegou a um menino que virou artista. O efeito colateral, que ele assume, é contar a história do hip-hop de um ângulo radical.

A mãe, antes do rapper
As três perguntas passam por Afeni Shakur. A apresentação do livro a põe no começo: Tupac, diz o texto da editora, é reconstruído a partir dos Panteras e dela.
Afeni tinha 22 anos na madrugada de quarta-feira, 2 de abril de 1969, e estava entre os 21 integrantes do Partido dos Panteras Negras de Nova York presos naquele dia. Era do capítulo do Harlem, como o partido chamava suas filiais. Nascera na Carolina do Norte, como Alice Faye Williams, e mudou de nome quando virou ativista. A acusação era de conspiração, crime que pune o acordo para cometer outro crime. A fiança chegou a US$ 100 mil por réu.
O partido tinha menos de três anos. Fundado em outubro de 1966, em Oakland, na Califórnia, por Huey Newton e Bobby Seale, nasceu como resposta à violência da polícia contra a população negra. Seu programa de dez pontos pedia emprego e o fim da violência policial, e ele mantinha programas que distribuíam comida e roupa em bairros pobres. O FBI o tratava como a maior ameaça interna do país e o atacava por meio do COINTELPRO, programa de contrainteligência que usava infiltrados e sabotagem. Em dezembro de 1969, a polícia de Chicago matou Fred Hampton, líder do partido em Illinois, numa operação no apartamento dele.
Na avaliação de Van Nguyen, a política marxista do partido às vezes se perde entre imagens de armas e de jaquetas pretas de couro.
Um tribunal, 13 réus
Dos 21 indiciados, 13 foram a julgamento. Dois haviam fugido: Michael Tabor, para a Argélia, e Dhoruba bin Wahad, para o Canadá. Os dois seriam absolvidos à revelia. O julgamento começou em outubro de 1970, diante do juiz John Murtagh, e durou cerca de sete meses.
De um lado, a acusação. Três policiais infiltrados no partido sustentavam que o grupo planejava matar policiais e explodir delegacias e até o Jardim Botânico do Bronx. Um deles, o detetive Ralph White, admitiu em juízo ter ajudado a organizar boa parte das atividades ilegais do capítulo.
Do outro lado, uma ré grávida e sem formação em direito. Afeni dispensou o advogado, se defendeu sozinha e foi ela quem interrogou White.
Entre os dois, o júri. Em maio de 1971, depois de cerca de uma hora e meia de deliberação, absolveu os 13 réus das 156 acusações. Jurados disseram à imprensa da época que o governo não provou o caso, e um deles criticou o uso da lei de conspiração contra dissidentes. O processo custou US$ 2 milhões.
Um mês depois, em 16 de junho, nasceu Tupac.
O menino recebeu o nome de Tupac Amaru. José Gabriel Condorcanqui, que passou a usar o nome inca Túpac Amaru, começou em 1780 uma rebelião indígena nos Andes contra o domínio espanhol, que se estenderia até 1783, e foi executado em Cusco, em 1781. Afeni disse ter dado o nome ao filho para que ele soubesse que fazia parte de uma cultura de dimensão mundial, e não de um bairro.
Van Nguyen pergunta como um artista de música para clube virou figura comparável a Che Guevara e a Bob Marley. A resposta que o livro persegue começa na casa de Tupac.

O que o partido deixou em casa
O partido já se desfazia quando Afeni saiu do tribunal. Em 1971, a direção de Oakland, de Huey Newton, rompeu com Eldridge Cleaver, exilado na Argélia, e com a ala de Nova York, que ficou ao lado dele. Do braço militar clandestino do partido saiu o Exército de Libertação Negra, ativo entre 1970 e 1981. O partido se dissolveu em 1982.
Os maridos de Afeni vinham dessa história. O primeiro, Lumumba Shakur, também Pantera, deu o sobrenome a ela e ao filho. Casaram-se em 1968.
O segundo, Mutulu Shakur, integrava o Exército de Libertação Negra. Ficou casado com Afeni de 1975 a 1982 e foi condenado a 60 anos de prisão pelo assalto de 1981 a um carro-forte da Brink’s, em Nanuet, no estado de Nova York, que deixou três mortos. Saiu em dezembro de 2022, em liberdade condicional por doença terminal, e morreu em julho de 2023. Com ele, Afeni teve uma filha, Sekyiwa, meia-irmã de Tupac.
A madrinha de Tupac, Assata Shakur, do mesmo Exército, fugiu da prisão com a ajuda de Mutulu e recebeu asilo em Cuba. O pai biológico, Billy Garland, ex-Pantera, hoje com 77 anos, ficou longe do filho quase a vida toda.
Nos anos 1980, Afeni caiu no crack. Recuperou-se no início da década seguinte. A canção Dear Mama, de 1995, foi inspirada nela.
Uma das primeiras gravações de Tupac, feita antes de ele assinar contrato, tinha o nome do partido: Panther Power. Van Nguyen diz que a faixa falava abertamente da origem dele.
Depois da morte do filho, Afeni passou a cuidar da obra dele. Em 1997, fundou a Amaru Entertainment, dona do material inédito de Tupac, e uma fundação de artes para jovens, e depois abriu um centro de artes em Stone Mountain, na Geórgia. Foi co-inventariante do espólio. Fez campanha contra a violência armada ao lado da mãe de Christopher Wallace, o Notorious B.I.G., também assassinado a tiros nos anos 1990. Em 2003, participou do documentário Tupac: Resurrection. Disse que tudo o que fazia era porque o filho tinha sido morto antes de concluir o próprio trabalho.
Afeni morreu aos 69 anos, em 2 de maio de 2016, em Sausalito, na Califórnia. O assassinato do filho continuava sem solução. A condenação de Davis, que a promotoria acusou de organizar o ataque, veio pouco mais de dez anos depois. A defesa diz que vai recorrer.
Serviço
- Livro: Palavras aos meus camaradas: a história política de Tupac Shakur, de Dean Van Nguyen
- Edição: Autonomia Literária e GLAC edições, com tradução de Amauri Gonzo e prefácio de Jair Santos Cortecertu
- Páginas: 300
- Pré-venda: R$ 84,15, com entrega prevista para novembro e um pôster, na loja da Autonomia Literária
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