Julgamento dos réus acusados de matar Guilherme Silva Guedes, em 2020, após falsa acusação de roubo em SP, foi remarcado depois de advogado de defesa apresentar novo atestado médico dias antes da audiência; mãe da vítima critica demora e cobra justiça

A Justiça de São Paulo adiou pela quarta vez o júri dos ex-policiais militares Adriano Fernandes de Campos e Gilberto Eric Rodrigues. A dupla é ré pela morte de Guilherme Silva Guedes, um adolescente negro de 15 anos assassinado em 2020 após ser injustamente acusado de roubo, no bairro Vila Clara, na zona sul de São Paulo, onde morava.
O júri popular estava marcado para esta quinta-feira (23/4), no Fórum Criminal da Barra Funda, zona oeste da capital. O motivo do adiamento foi a impossibilidade de participação do advogado de Gilberto, por razões de saúde. Das quatro vezes em que o júri foi adiado, três ocorreram por este mesmo motivo.
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A mãe da vítima, Joice da Silva dos Santos, 37, que aguarda pelo julgamento do caso há quase seis anos, conta que foi informada sobre o novo adiamento apenas dois dias antes da data marcada para a audiência.
“Conseguiram me torturar mais uma vez, como se não bastasse terem me sentenciado à pior dor que existe, que foi a perda do meu filho”, desabafou Joice à Ponte.
Uma nova data para o júri foi marcada para agosto de 2026 pela juíza Ana Luisa Marcondes Esteves, da 1ª Vara do Júri da capital. Na mesma decisão, ela enviou um ofício à Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB/SP) para apurar “eventual infração disciplinar” por parte de Gilberto Quintanilha Pucci, advogado de defesa do ex-PM que solicita, desde 2024, os adiamentos do júri.
Apesar de conceder o novo adiamento “por razões de garantia do contraditório e da ampla defesa” do réu, a magistrada descreve a “repetição sequencial de quatro adiamentos” como “manobra”, que “ainda que disfarçada sob o manto de um direito processual, assume contornos de expediente protelatório, incompatível com os deveres éticos da advocacia e com a seriedade do rito do Júri”.
Procurado pela Ponte, Gilberto ainda não se manifestou. O espaço segue aberto para eventuais posicionamentos do advogado.
Adiamentos sucessivos do júri
A primeira audiência do caso foi marcada para 15 de agosto de 2024. Na véspera, porém, o advogado do ex-PM solicitou a remarcação do júri, ao apresentar um atestado médico válido por sete dias e emitido naquele mesmo dia 14.
Um novo julgamento foi então designado para 17 de julho de 2025. Mas, três dias antes, a defesa apresentou um novo pedido de adiamento, embasado por outro diagnóstico de saúde do advogado Gilberto Quintanilha Pucci, nos mesmos moldes do requerimento anterior.
A terceira data para a audiência foi marcada para 12 de março de 2026, mas adiada para 23 de abril, depois de Pucci apresentar, em agosto passado, um novo pedido de adiamento alegando “conflito de pauta” com outra Comarca paulista.
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Já o júri que aconteceria hoje foi remarcado para 11 de agosto, após o advogado do ex-PM Gilberto apresentar ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), no último dia 17 de abril, outro atestado médico, que recomenda seu afastamento do trabalho por 14 dias.
“O advogado sempre fica doente próximo da audiência e manda atestado faltando poucos dias”, diz a mãe de Guilherme. Ela receia que o mesmo ocorra no júri remarcado para agosto, caso nenhuma medida seja tomada até lá. “Parece que ele está querendo ganhar tempo, mas, se eles são inocentes como alegam, por que estariam com medo de fazer essa audiência?”, questiona.
Em julho passado, em outra entrevista à Ponte, Joice já havia criticado a longa espera pelo julgamento. “O que é mais revoltante é que eles mataram meu filho em menos de dez minutos e eu espero mais de cinco anos pela justiça”, disse à época.
Sequestro e morte de Guilherme
Guilherme foi sequestrado na porta de casa, no bairro Vila Clara, na zona sul de São Paulo, no dia 14 de junho de 2020, e encontrado morto horas depois em um terreno no bairro Eldorado, na divisa entre a capital paulista e a cidade de Diadema.
Imagens de uma câmera de segurança mostraram o adolescente entrando em um beco ao lado da residência onde morava. Segundos depois, apareceram no local dois suspeitos: os ex-policiais militares Adriano Fernandes de Campos e Gilberto Eric Rodrigues.
Adriano aparece com as mãos para trás e portando uma arma de fogo — o próprio ex-PM admitiu ser ele nas imagens e estar acompanhado de Gilberto. Depois disso, Guilherme não foi mais visto com vida. O beco em que o adolescente entrou dava acesso a um canteiro de obras da Globalsan, empresa terceirizada da Sabesp. Ainda policial na época, Adriano prestava, ilegalmente, serviços de vigilância no local e tinha Gilberto como funcionário.
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Na ocasião, os dois teriam perseguido duas pessoas que entraram no terreno da obra. Elas pretendiam pular um muro para acessar um supermercado vizinho e pegar alimentos vencidos. Foi nesse contexto que os ex-policiais teriam abordado Guilherme e o apontado, sem provas, como suspeito de roubo e invasão do canteiro.
Um vigilante que trabalhava na obra disse que, após sair da viela, Adriano buscou um carro estacionado no canteiro, deixou o próprio telefone celular no local e saiu apressado. O Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) entendeu que, neste momento, Guilherme era mantido sob poder de Gilberto, que aguardava o comparsa com o veículo para levá-lo a um local ermo onde seria executado.
Familiares e vizinhos do garoto protestaram à época, chegando a incendiar um ônibus e bloquear uma avenida. Também fizeram um ato em frente à Globalsan, empresa ligada à Sabesp.

STJ negou recurso da defesa de ex-PM
Em abril de 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) confirmou a decisão do TJSP de que o caso deve ser submetido a um novo júri popular.
Em outubro de 2021, o primeiro julgamento terminou com Adriano absolvido, sob a justificativa de que ele não teria sido o autor dos tiros que mataram o adolescente. No entanto, o MPSP recorreu, argumentando que a decisão dos jurados confrontava as provas dos autos. Em dezembro de 2022, o TJSP acolheu o pedido da Promotoria e determinou a realização de um novo julgamento.
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A defesa de Adriano recorreu com um recurso especial ao TJSP, que foi negado. Em seguida, apresentou um agravo ao STJ, que também rejeitou o pedido. O ministro Messod Azulay Neto entendeu que o acórdão do TJSP estava devidamente fundamentado ao considerar que a decisão do primeiro júri contrariava as provas do processo.
Gilberto ainda não foi julgado por este caso.
Expulsão e antecedentes
Adriano foi expulso da Polícia Militar em 2022, por decisão do Comando-Geral da corporação. A punição se baseou em duas infrações consideradas graves pelo Regulamento Disciplinar da PM: “exercer ou administrar, o militar do Estado em serviço ativo, a função de segurança particular ou qualquer atividade estranha à Instituição Policial-Militar com prejuízo do serviço ou com emprego de meios do Estado” e “ofender a moral e os bons costumes por atos, palavras ou gestos”.
O comando concluiu que o então sargento cometeu “atos atentatórios à Instituição, ao Estado e aos direitos humanos fundamentais”. Adriano era dono, com o pai — o PM aposentado Sebastião Alberto de Campos —, da Campos Forte Portarias Ltda., registrada como empresa de zeladoria, mas que, segundo investigação da Ponte, prestava na prática serviços terceirizados de segurança privada, como os realizados para a Globalsan.
Adriano chegou a ser preso três dias após a morte de Guilherme, mas foi solto em 2021, ao ser absolvido no primeiro julgamento. Já Gilberto está preso desde 13 de maio de 2021, quando foi encontrado escondido em uma chácara na zona rural de Peruíbe, litoral sul de São Paulo.
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Na época do assassinato de Guilherme, Gilberto era considerado foragido. Ele havia escapado do Presídio Militar Romão Gomes em abril de 2015. A PM, no entanto, mentiu sobre a fuga, afirmando à Ponte, em resposta oficial, que ele ainda estava preso no local.
Em 2023, Gilberto foi condenado a 125 anos de prisão em regime fechado por participação na Chacina do Jardim Rosana, ocorrida em 4 de janeiro de 2013, na zona sul de São Paulo. O ataque deixou sete mortos, incluindo o DJ Lah (Laércio de Souza Grimas, 33 anos), e dois feridos.
*Colaborou Catarina Duarte
Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo
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