Ato em Santos reuniu mães de vítimas, movimentos sociais e apoiadores históricos do movimento. “Quando tomba uma pessoa negra, pobre, moradora de favela, 200 se levantarão para segurar as mães”, disse Débora Maria da Silva, liderança das Mães de Maio

O Movimento Independente Mães de Maio, criado após mais de 500 mortes em maio de 2006, voltou neste domingo (17/5) às ruas da Baixada Santista. Familiares de vítimas relembraram os Crimes de Maio e denunciaram a continuidade da violência policial no litoral paulista.
Os 20 anos dos Crimes de Maio foram lembrados em um ato realizado na Estação da Cidadania, em Santos, no litoral de São Paulo. O nome da praça representa quase uma antítese. Segundo o dicionário, cidadania é a condição de quem possui direitos civis, políticos e sociais, que garante a participação na vida política. É justamente essa condição, uma das primeiras a ser negada às vítimas — vivas e mortas — da violência de Estado.
O ato em Santos foi carregado de simbolismos. Foi na Baixada Santista que nasceu o Movimento Independente Mães de Maio, formado por familiares de vítimas dos Crimes de Maio de 2006. Débora Maria da Silva, uma das fundadoras do movimento, teve seu filho, Edson Rogério da Silva, de 29 anos, encontrado morto após uma abordagem policial em um posto de gasolina na cidade.
Edson é uma das vítimas do maior massacre urbano da história do país. Entre os dias 12 e 21 de maio de 2006, ao menos 564 pessoas foram mortas em São Paulo. Em sua maioria eram jovens, negras, pobres e moradoras de periferias.
O massacre teve início após uma série de ataques da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) contra agentes públicos. E terminou com uma vingança indiscriminada de policiais e de grupos de extermínio formados por agentes de segurança contra civis.
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A manifestação reuniu mães de vítimas da violência estatal, representantes de movimentos sociais, médicos parceiros, defensores de direitos humanos e apoiadores históricos do movimento ao redor de Débora Maria da Silva. Uma espécie de retrospectiva dos últimos 20 anos. “Quando tomba uma pessoa negra, pobre, moradora de favela, 200 se levantarão para segurar as mães”, disse Débora.
Para ela, as operações policiais recentes mostram que a lógica dos Crimes de Maio continua presente na política de segurança pública do estado. “Se tivesse tido punição em maio de 2006, a gente jamais tinha a Operação Escudo e a Operação Verão”, afirmou. “A gente está aqui agora com as mães da Operação Escudo, mães da Operação Verão. Aquele massacre foi continuado.”

O medo nas ruas
Em Santos e em outras cidades da Baixada Santista, os ataques e a resposta policial instauraram um clima de medo. Durante o ato deste domingo, Cidinha Santos, assessora de movimentos sociais de Santos, relembrou o clima vivido na região em 2006. “A cidade estava fechada. Ninguém sabia o que fazer. A gente não sabia o que esperar da polícia”, diz.
Ela conta que a versão inicial que circulava era a de que apenas integrantes do PCC estavam envolvidos nos ataques e confrontos. “Demorou para chegar a informação. A gente ouvia que o PCC estava atacando e que a polícia estava revidando. Mas a história não foi bem essa”, afirma.
Segundo Cidinha, foi apenas dias depois que começaram a surgir relatos de mortes de jovens sem relação com a facção. “Começa a chegar a informação de que gente conhecida foi assassinada. Aí veio o filho da Débora . Nossa, a gente entra em pânico.”
Memória e disputa por reparação
A luta das Mães de Maio está cravada na própria geografia de Santos. Em 2021, um monumento com 11 pessoas de braços erguidos, segurando juntas seis buquês de rosas, foi criado em homenagem às vítimas dos Crimes de Maio. A obra do artista Luís Garcia fica no bairro do Bom Retiro, na zona noroeste da cidade.
Em 2026, também foi inaugurado o Centro de Memória da Violência de Estado. O projeto foi viabilizado por meio de um edital do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, a partir de uma proposta escrita pelas Mães de Maio em parceria com a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas e com apoio técnico da ONG Conectas Direitos Humanos.
As iniciativas surgem em um contexto em que familiares de vítimas seguem disputando memória e reconhecimento. Duas décadas depois, os familiares ainda denunciam a ausência de responsabilização pelas mortes e a continuidade da violência policial na Baixada Santista.
A disputa também acontece nos tribunais. Atualmente, está suspenso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) o julgamento que discute se o Estado de São Paulo ainda pode ser responsabilizado civilmente pelos Crimes de Maio e obrigado a adotar medidas de reparação às famílias das vítimas.
A ação foi movida pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) em 2018. Em decisões anteriores, a Justiça paulista entendeu que o prazo para responsabilização já havia prescrito. A Defensoria Pública recorreu ao STJ sob o argumento de que graves violações de direitos humanos não prescrevem.
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Durante o ato, Débora criticou a atuação do sistema de Justiça diante das mortes ocorridas em 2006. “Nós não aceitamos a prescrição desses filhos, nós vamos lutar com unha e dente, porque nossos filhos tinham nome, sobrenome e residência fixa. Eles morreram como suspeitos por causa da covardia do Estado”, afirmou.
“O Judiciário pode tirar a toga e passar a ser um ser humano”, disse. “Se ele parar de olhar o CEP, a cor do pigmento e o sexo, a gente consegue fazer com que parem de matar nossos filhos com a canetada”, completou.

Baixada segue marcada por violência
Afinal, os Crimes de Maio não começaram e terminaram em si. Santos segue sendo cenário não só de várias das mortes daquele período, mas também de operações policiais letais nos últimos anos, como a Operação Escudo e a Operação Verão.
“Nós todos estávamos em pânico, sem saber o que ia acontecer. Acho que o medo era a palavra mais significativa daquele momento.” A lembrança é de Marli Carvalho de Soares Santos, coordenadora-geral da Organização da Sociedade Civil Consciência pela Cidadania, ouvida pela Ponte durante o ato realizado neste domingo.
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Em 2006, ela era professora do curso de Ciências Sociais da Universidade Católica de Santos e diz que a dimensão da violência estatal ainda não estava clara para parte da população.
“Na TV era o ataque do PCC. Só depois a gente foi começar a descobrir que teve uma represália muito grande do Estado e que muitas pessoas foram mortas sem nem ter antecedente criminal.”
Para Marli, a permanência de operações policiais violentas na Baixada Santista mostra como as denúncias feitas pelas Mães de Maio seguem atuais duas décadas depois. “O que nós esperamos das organizações que cuidam da segurança é uma atuação humanizada. A segurança é para nos proteger e não para nos amedrontar.”
Mães de Maio realizaram série de mobilizações
O encontro deste domingo encerra uma semana de mobilizações organizadas pelas Mães de Maio em alusão aos 20 anos do massacre. Na quinta-feira (14/5), familiares de vítimas e movimentos sociais lançaram um Tribunal Popular na sede da seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), em São Paulo. A iniciativa busca denunciar as violações cometidas pelo Estado brasileiro desde os Crimes de Maio de 2006 e discutir caminhos de memória, reparação e não repetição da violência estatal.
Já no sábado (16/5), centenas de pessoas ocuparam a Avenida Paulista durante o Cordão da Mentira, cortejo que há mais de uma década transforma samba, memória e denúncia em manifestação política contra a violência do Estado. Neste ano, o desfile teve como eixo os 20 anos dos Crimes de Maio e reuniu mães de vítimas da violência policial de diferentes regiões do país.
O ato deste domingo marca o encerramento da semana do Projeto EnfrentAção, uma parceria firmada no ano passado entre as Mães de Maio, o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (Caaf/Unifesp) e o Ministério da Justiça.
O projeto promove escuta qualificada e apoio multiprofissional para 150 mulheres de cinco estados diferentes. São mães que já passaram pelo trauma e hoje acolhem aquelas que acabaram de perder seus filhos. A proposta é que, a partir dessas trocas, seja entregue ao Governo Federal uma política de reparação psicossocial para familiares vítimas da violência de Estado.
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Parte desse acolhimento também se expressava nos gestos trocados entre as mulheres presentes no ato deste domingo.
O ano de 2026, disse Débora durante o ato, tem sido um dos mais difíceis da trajetória. E é por isso, também, que pessoas do passado e do presente a acompanham nesta data.
Ainda que, muitas vezes, seja ela quem as ampare. Não foram poucas as vezes em que, ao longo dos últimos dias, Débora repousou as mãos sobre os ombros ou braços das parceiras de luta enquanto elas discursavam. Um gesto que, para quem observava de fora, parecia dizer “eu estou aqui”. Bastava olhar com mais atenção, no entanto, para perceber uma linguagem compartilhada entre mulheres marcada pela perda de filhos para a violência do Estado.
Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo
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