Igor Nicolas do Carmo Rodrigues, de 19 anos, foi morto ao ser surpreendido por uma alegada fiscalização em um trecho escuro, sem sinalização ou bloqueio da via em Palotina (PR). Polícia Civil alega que toxicológico ‘não é procedimento de praxe’

A Polícia Civil do Paraná tem ignorado desde o ano passado uma determinação do Ministério Público paranaense (MPPR) para que sejam realizados exames toxicológicos dos dois policiais militares envolvidos na morte a tiros de Igor Nicolas do Carmo Rodrigues, um jovem negro de 19 anos.
Conforme mostrou a Ponte, Igor foi assassinadodurante uma blitz de trânsito irregular em Palotina, pequeno município no interior do Paraná, em 19 de setembro do ano passado.
Os policiais militares Gabriel Afonso Aleixo de Freitas, que atirou três vezes, e Pedro Henrique Frizon, que o acompanhava na ocasião, alegaram que a vítima desobedeceu uma ordem de parada e arremessou uma motocicleta em direção a eles. Uma câmera de segurança registrou, no entanto, que Igor foi baleado ao ser surpreendido pela alegada fiscalização em um trecho escuro, sem sinalização ou bloqueio da via.
Polícia Civil alegou que toxicológico ‘não é procedimento de praxe’
Em 2 de outubro de 2025, o MPPR fez então um primeiro pedido à Polícia Civil para que fossem juntados ao processo laudos toxicológicos dos policiais, para identificar o eventual uso de substâncias psicoativas na ocasião em que participaram da ocorrência, e também um laudo de velocidade da moto de Nicolas, “a ser realizado por perito especialista”. O prazo para isso ser cumprido era de 30 dias.
Em 12 de março de 2026, ou seja, passados 161 dias sem que o pedido tivesse sido cumprido pela Polícia Civil, o Ministério Público voltou a se manifestar no processo, solicitando que os laudos fossem feitos com urgência e que fosse declarado o prazo necessário para o fim das investigações.
Apenas em 24 de abril deste ano, o delegado Antônio Laécio Sousa Rodrigues anexou ao processo um laudo da velocidade da moto de Nicolas na ocasião em que foi morto. O documento não é assinado, no entanto, por um perito especialista, como solicitou o MPPR, mas pelo próprio delegado. Ele conclui, a partir das imagens de uma câmera, que a vítima estaria a 58,5 km/h, em uma via com limite de 40 km/h.
Leia também: Câmera desmente PMs e registra morte a tiros de jovem negro em blitz irregular no interior do PR
O delegado não apresentou, ainda assim, os laudos toxicológicos dos PMs. Naquela mesma altura, ele apenas protocolou no processo um ofício no qual o agente Vinícius Wensersky, da Polícia Civil, argumenta que realizar tal exame em policiais “não é procedimento de praxe”.
O agente também relata no ofício que “foi consultada a Unidade Técnico-Científica de Toledo, vinculada à Polícia Científica do Paraná, acerca da viabilidade de exame com janela de detecção ampliada, aguardando-se manifestação técnica a respeito”. Até hoje, não há resposta sobre essa suposta consulta.
Na última quarta-feira (6/5), o MPPR voltou a pedir então a realização dos exames toxicológicos, desta vez em um ofício assinado por três promotores de Justiça. Eles também pedem que seja feita uma nova perícia da velocidade da moto de Igor, com auxílio da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que tem um campus em Palotina, “garantindo-se rigor técnico na análise”. Foi dado prazo de 30 dias.
A Ponte questionou o Ministério Público do Paraná, entre outras coisas, se os policiais civis à frente da investigação incorrem em alguma infração ao não realizarem as diligências solicitadas. Em resposta, o órgão limitou-se a comunicar que elas têm “o objetivo de reunir elementos técnicos considerados essenciais para a formação de posicionamento conclusivo sobre os fatos apurados”.
A reportagem também procurou a Polícia Civil paranaense, segundo a qual “procedeu com a requisição dos laudos periciais solicitados” pelo MPPR sobre o caso.
Jovem foi morto em blitz de trânsito sem sinalização
Conforme mostrou a Ponte, Igor foi morto às 23h54 de 19 de setembro de 2025, quando circulava de moto por uma rua próxima a um campus daUFPRpara buscar a namorada e saírem juntos.
O policial Gabriel Afonso Aleixo de Freitas disparou três vezes com uma pistola Beretta calibre 9 milímetros. Dois dos tiros atingiram o tórax de Igor, que ainda conduziu a moto por mais alguns metros até cair de lado com ela. O terceiro dos disparos feriu o soldado Pedro Henrique Frizon de raspão.
Mesmo com a vítima baleada no chão, os dois policiais se mantiveram inertes, sem prestar socorro imediato. Pessoas que tentaram se aproximar da cena para ajudar foram expulsas pelos agentes.
A princípio, a imprensa local repercutiu uma versão da PMPR sobre o caso, de que o jovem teria avançado em alta velocidade contra dois policiais em uma blitz para tentar empreender uma fuga. Segundo os agentes, Igor teria desobedecido sinais luminosos, gestos e ordens verbais de parada. Além disso, ao acelerar e arremessar a moto contra os agentes, teria incorrido em uma “agressão iminente e injusta”. Eles concluíram então que a morte a tiros seria justificada: “Não havendo alternativa eficaz menos lesiva diante da conduta, foi necessário o uso de força policial com arma de fogo.”
Leia também: ‘Nosso luto é luta’: família denuncia execução de jovem por PMs no Paraná
A família da vítima desconfiou, no entanto, dessa versão, por entender que Igor jamais faria aquilo. O jovem era habilitado e dono da própria moto, com documentos em dia. Nunca teve qualquer antecedente criminal, era trabalhador — durante o dia, batia ponto em uma loja de roupas e, à noite, cumpria expediente em um restaurante — e tinha um perfil apaziguador.
Os familiares foram então ao local da ocorrência e obtiveram as imagens de uma câmera de segurança de uma casa vizinha (veja acima).
Nelas, os policiais aparecem com uma viatura estacionada à beira da Rua Pioneiro, em um trecho cercado por um canteiro de árvores e um gramado que leva a uma área de mata nativa, nos fundos do campus da UFPR. A iluminação no local é baixa. O carro dos PMs está com os faróis e o giroflex desligados. Também não há cones ou outra sinalização física na via.
Quando Igor se aproxima, em aparente velocidade adequada para o local, os dois policiais saem de trás da viatura e se colocam na faixa de rolamento. Pedro tenta então piscar uma lanterna, quando Igor se dá conta da blitz. O jovem desvia do primeiro policial a tempo, mas é baleado pelo segundo deles.
Assine a Newsletter da Ponte! É de graça
OCódigo Brasileiro de Trânsito (CTB)estabelece como uma infração gravíssima furar um bloqueio viário policial. OManual Brasileiro de Fiscalização de Trânsito (MBFT)especifica que esse tipo de bloqueio se caracteriza pela “presença de cones, cavaletes, ou viatura(s), ou outros equipamentos utilizados na sinalização, posicionados de forma a limitar ou impedir o fluxo dos veículos em um ou ambos os sentidos da via, com o objetivo de realizar ações de segurança pública incluídas nestas as ações para fins de fiscalização de trânsito”. Ou seja, a blitz em Palotina não cumpria esses requisitos.
Leia a íntegra do que diz o MPPR
O Ministério Público do Paraná requisitou a realização de diligências complementares no âmbito de investigação criminal em trâmite na Comarca de Palotina (inclusive conforme pontuado pela assistência à acusação), com o objetivo de reunir elementos técnicos considerados essenciais para a formação de posicionamento conclusivo sobre os fatos apurados. Entre as medidas solicitadas está a realização de exame toxicológico nos policiais militares envolvidos na ocorrência, com a finalidade de aferir a capacidade psicomotora dos agentes no momento da ação. Conforme destacado pelo MPPR, embora a providência não seja usual, trata-se de diligência pertinente para o completo esclarecimento dos fatos. Também foi reiterado o pedido para realização de perícia de velocidade por perito(s) ad hoc, mediante contato com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), câmpus Palotina. A análise busca conferir maior rigor técnico à apuração do elemento “velocidade”, considerado relevante para a avaliação da hipótese de legítima defesa, seja para seu reconhecimento ou afastamento. As diligências deverão ser cumpridas no prazo de 30 dias.
Leia a íntegra do que diz a Polícia Civil do Paraná
A Polícia Civil do Paraná (PCPR) informa que relatou o inquérito policial em 24 de abril de 2026 e que foi cientificada em 6 de maio de 2026 acerca da necessidade de novas diligências apontadas pelo Ministério Público (MP). De imediato, a autoridade policial procedeu com a requisição dos laudos periciais solicitados. A PCPR aguarda a conclusão dos exames pelos órgãos competentes para posterior encaminhamento ao Ministério Público.
Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo
Jornalismo investigativo com rigor documental. Se esta reportagem foi útil, compartilhe e ajude a ampliar o alcance desta investigação.




