Relatos de vítimas rendidas em assalto põem em dúvida versão policial de que três armas foram apreendidas. PMs afirmaram que já sabiam do crime, mas não o evitaram. Pelo menos um dos assaltantes já havia roubado o local

O relato de uma testemunha colocou em dúvida a versão dos policiais militares envolvidos no caso em que o soldado Matheus Almeida Rodrigues, de 28 anos, foi morto no último sábado (11/4), em Sorocaba (SP). Na ocasião, quatro homens assaltaram uma farmácia e, na saída do local, foram reprimidos a tiros por policiais. A Ponte obteve detalhes da investigação feita pela Polícia Civil.
Os PMs alegaram, a princípio, que houve um confronto e que apreenderam três armas de fogo com os assaltantes, entre as quais duas seriam revólveres e uma seria uma pistola falsa. Uma pessoa que trabalha na farmácia relatou, contudo, ter visto apenas uma arma com os criminosos, sem ter esclarecido se parecia ser verdadeira ou não. Além disso, o único assaltante que sobreviveu ao episódio alegou que o grupo tinha apenas uma arma de brinquedo e que se rendeu.
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Anteriormente, a Ponte já havia publicado um vídeo que contrasta com a versão policial. O registro mostra que Matheus não foi morto em um confronto. Na verdade, o soldado só foi atingido um minuto após o fim de disparos feitos por outros policiais contra os assaltantes.
Especialistas ouvidos pela Ponte levantaram na ocasião a hipótese de que Matheus possa ter sido atingido por um disparo acidental. Já o site Metrópoles revelou que a Polícia Civil investiga se o soldado foi vítima de uma “arma fria” — ou seja, se algum policial teria tentado forjar um confronto atirando com uma arma “plantada na cena” para atribuí-la aos assaltantes, quando teria atingido Matheus.
ASecretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) afastou policiais envolvidos na ocorrência do trabalho nas ruas, ao menos até que haja a conclusão das investigações.
Testemunhas viram apenas um arma e reconheceram assaltante de roubo anterior
O assalto à farmácia teve início por volta das 1h35 da madrugada. Na ocasião, dois dos assaltantes renderam a gerente e a fizeram ir até o cofre do estabelecimento. Antes mesmo do crime ser anunciado, ela reconheceu o rosto de um deles, porque ele já havia participado de outro assalto no local em janeiro. A farmácia também já havia sido alvo de outros roubos.
Um terceiro assaltante também entrou na farmácia. Ele rendeu os demais funcionários e se dirigiu a uma geladeira onde eram guardadas canetas emagrecedoras que também foram levadas.
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A gerente disse à Polícia Civil que os assaltantes pareciam calmos e já conheciam a operação da farmácia. Ela afirmou ainda que só viu uma arma com os dois assaltantes que a acompanharam. Um deles mantinha a mão disposta como se estivesse armado, mas sem exibir arma alguma. “Um, eu tenho certeza, porque eu vi ele passando a arma para o outro. Agora, o outro, eu não tenho certeza, porque ele estava com a mão aqui. Não posso falar que estava armado, porque eu não vi a arma.”
Já uma outra funcionária, que precisou entregar as canetas emagrecedoras, afirmou à Polícia Civil que o terceiro assaltante também não exibiu arma alguma, embora, em certo momento, tenha ameaçado as vítimas do roubo para que se apressassem. “ foi tentar tirar e falou assim: ‘entra logo, quer levar tiro na cara?’. Daí, nós pegamos, entramos, mas ele não chegou a tirar uma da cintura.”
Assaltante diz que grupo tentou se render e só tinha uma arma de brinquedo
Os assaltantes saíram da farmácia por volta das 1h48 da madrugada e correram com os itens roubados em direção à Rua André Rodrigues Benavides, no bairro Parque Campolim, onde haviam estacionado um Volkswagen Virtus prata para fugir. A partir desse momento, uma câmera de segurança registrou a chegada de policiais militares, que passaram a atirar contra os criminosos no carro.
Três dos assaltantes morreram baleados, enquanto o quarto deles conseguiu correr para a direção oposta a dos policiais. Esse sobrevivente acabou pego depois e foi outro a depor à Polícia Civil, com um relato que também pôs em xeque a versão dos policiais.
Trata-se de um motoboy de 19 anos sem antecedentes criminais. Ele disse que, após manobrar o carro para fugir e ser surpreendido pelos policiais, o grupo tentou se render, mas não houve tempo para isso.
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“O Marcelo foi abrir a porta, falar para o senhor que ele rendeu, aí os meninos também. Tudo tava levantando a mão. Foi nessa que, do nada, eu ouvi uns barulhos de disparo, sabe? Uns disparos… aí ficou tudo assim. Aí todo mundo tava tentando sair do carro. Aí os meninos conseguiu, um dos dois conseguiu sair. Eu consegui sair por último”, disse.
“Aí os meninos já… eu não sei se eles já caíram, já saíram do carro já baleado, deitado. Aí eu sei que eu consegui correr um pouquinho, me escondi atrás do muro do prédio. Consegui pular o muro. Aí fiquei escondido no mato. Aí, depois disso, eu vi mais uns dois disparos. Aí eu não sei o que tava acontecendo. Aí eu, depois disso, eu fiquei lá esperando, só esperando os policial aparecer para me pegar lá sentado.”
O sobrevivente alegou ainda que o grupo tinha apenas uma arma falsa, a que usaram para render as vítimas na farmácia. “Nós tava com arma de brinquedo. De fogo, não tava.” Nos vídeos da ocorrência obtidos pela Ponte, não é possível ver com clareza os assaltantes armados ou mesmo atirando.

Policiais disseram saber de roubo e relataram detalhes conflitantes
A Polícia Civil ainda ouviu ao menos 11 policiais militares envolvidos na ocorrência. Todos eles assumiram que já tinham previamente a informação de que uma farmácia no bairro Parque Campolim, em Sorocaba, poderia ser alvo de um assalto naquela madrugada. Dois deles ainda relataram saber especificamente qual seria a farmácia, também em função do histórico de assaltos a ela.
As autoridades de segurança também já tinham uma outra importante informação: o Volkswagen Virtus prata usado pelos assaltantes havia sido roubado no dia 3 de abril, em Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo. Naquela data, um motorista de aplicativo registrou um boletim de ocorrência para relatar ter sido vítima do crime. Os criminosos conseguiram, ainda assim, permanecer com o veículo por mais de uma semana, até irem assaltar a farmácia em Sorocaba, a 100 quilômetros de distância.
À Polícia Civil, os policiais militares envolvidos no caso de Sorocaba alegaram que houve um confronto com os assaltantes, com relatos que contrastam entre si em alguns detalhes e com os vídeos da ocorrência. Um dos PMs, por exemplo, alegou que o motorista do carro abriu a porta com uma arma de fogo em mãos, “apontando para mim, para os demais policiais”.
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Um outro agente disse que, dos dois assaltantes que saíram do banco de trás do carro, o sobrevivente que fugiu para o fundo da rua “corria com uma arma na mão”. Um terceiro PM afirmou, no entanto, não ter visto uma arma com esse assaltante sobrevivente: ao correr, o criminoso apenas “segurou bem próximo à cintura” e “fez menção que iria virar para poder efetuar disparo”.
Um quarto policial afirmou que os assaltantes que saíram do banco de trás tinham “a mão na cintura fazendo menção de sacar uma arma”, o que gerou “confronto” contra ambos.
Um quinto policial disse que, ao tentarem realizar a abordagem, os PMs viram os assaltantes armados dentro do carro, ainda que o veículo estivesse com os vidros escuros fechados e que as viaturas estivessem com faróis apagados. Nesse momento, segundo o agente, eles “apontaram os armamentos para nós, e nós começamos a efetuar disparos repelindo injusta agressão”. Um sexto PM também disse que houve uma tentativa de abordagem, mas que os “indivíduos não obedeceram”.
PMs assumem ter atirado do lado oposto a Matheus quando soldado apareceu
Um dos vídeos da ocorrência mostra que a situação foi contida à 1h50min50s. A essa altura, o soldado Matheus sequer estava no local da ocorrência. Somente vinte segundos depois, chegaram mais três viaturas, quando Matheus desembarcou de uma delas. Não havia mais disparos. O soldado caminhou pela calçada até se aproximar do corpo de um dos assaltantes, o motorista, do lado esquerdo do carro.
Nesse momento, outros três policiais deram a volta pela traseira do carro e se posicionaram do lado direito dele, na direção oposta a Matheus. Naquela ocasião, um dos assaltantes estava ainda dentro do carro, no banco do passageiro à frente. O vídeo não esclarece se ele já estava morto ou não, mas ao menos é possível ver que, desde o momento em que a situação foi contida, nenhum PM se mostrou ameaçado pelo criminoso que permanecia dentro do veículo, por cerca de 40 segundos.
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Esses três policiais depuseram à Polícia Civil. Eles alegaram que pretendiam supostamente desarmar esse assaltante que ainda permanecia dentro do carro. Disseram também que, quando um deles abriu a porta, o assaltante sentado no veículo reagiu atirando não na direção deles, mas no sentido oposto, para o lado esquerdo, onde estava Matheus. Depois disso, o assaltante teria se virado em direção aos três policiais e passado a também atirar contra eles. Foi quando teriam reagido e matado esse assaltante.
Os três foram questionados se Matheus pode ter sido atingido por um deles, por “fogo amigo”. O primeiro disse que os três concentraram os disparos no assaltante e, pelo ângulo deles, não teriam como atingir Matheus. Ele disse acreditar, embora não tivesse certeza, que foi o assaltante quem baleou o soldado.
O segundo PM afirmou que “possivelmente foram deles”, os assaltantes, que partiu o tiro que matou Matheus. Já o terceiro policial disse que foi “uma situação muito agitada” e que não saberia esclarecer de quem partiu o disparo fatal contra o colega de farda. “Mas o autor do roubo efetuou disparos nas duas direções ali, então não consigo precisar o certo”, relatou.
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Pelo vídeo da ocorrência, não é possível ver essa dinâmica, já que ele mostra apenas o que ocorria do lado esquerdo do carro, e não do direito. Nos instantes anteriores a Matheus ser baleado, após os três PMs terem dado a volta no veículo, é possível ver que, do lado esquerdo, um outro policial se agacha e parece revistar o corpo do motorista, caído na calçada.
Também nesse momento, um segundo policial do lado esquerdo do carro corre para trás de uma viatura, como se visse uma ameaça iminente. Já um terceiro agente sinaliza com as mãos para que Matheus se afaste. Logo em seguida, o soldado é atingido com um tiro na cabeça, à 1h51min49s.
O que diz a SSP-SP
ÀPonte, a SSP-SP lamentou a morte de Matheus. A pasta comunicou que, além da Polícia Civil, a Corregedoria da Polícia Militar investiga o caso.
Ainda segundo a SSP-SP, foram solicitados exames periciais ao Instituto de Criminalística (IC) e ao Instituto Médico Legal (IML), submetidos à Polícia Técnico-Científica — especialistas ouvidos pela Ponte afirmaram que um exame de confronto balístico poderá esclarecer de onde partiu o disparo que tirou a vida de Matheus.
Leia a íntegra do que diz a SSP-SP
A Secretaria da Segurança Pública lamenta a morte do agente e reforça que todos os fatos relacionados à ocorrência são apurados com rigor em Inquérito Policial Militar. A pasta não compactua com desvios de conduta e eventuais irregularidades serão apuradas e punidas nos termos da lei. Os policiais envolvidos foram afastados das atividades operacionais até a conclusão das investigações. As imagens e demais evidências estão sendo analisadas pela Polícia Civil, por meio da Deic de Sorocaba, com apoio de exames periciais do Instituto de Criminalística e do Instituto Médico Legal para o esclarecimento da dinâmica dos fatos. Um Inquérito Policial Militar também foi instaurado pela Polícia Militar.
Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo
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