A Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) é a tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo. De 2006 a 2017, na Folha de S.Paulo e depois no R7 e na Ponte, André Caramante publicou reportagens que puseram em dúvida versões oficiais de ações da tropa: tiroteios que teriam sido simulados para justificar mortes, uma apreensão de droga filmada por câmeras de segurança e uma ação contra ladrões de caixas eletrônicos que terminou com seis mortos. Em 2012, depois de uma reportagem sobre um ex-comandante da Rota, ele passou a receber ameaças de morte.
Os ataques de maio de 2006 e os tiroteios simulados
Nos ataques do PCC de maio de 2006, Caramante acompanhou a reação das polícias. Em 17 de maio, mostrou que a polícia paulista tinha matado 33 suspeitos em 12 horas e 71 desde o começo dos ataques, sem divulgar quem eram os mortos. Uma semana depois, com outra repórter da Folha, mostrou que os homicídios tinham crescido oito vezes em Guarulhos durante os ataques, vários com características de execução.
Em novembro, revelou que a Corregedoria da PM e o Ministério Público investigavam uma equipe da Rota suspeita de matar dois homens em Guarulhos, em 13 de maio, e de simular, com a ajuda de um empresário, um sequestro e uma perseguição para justificar as mortes. Segundo a investigação, uma das vítimas tinha sido presa quase duas horas antes do tiroteio relatado pelos policiais. Nos dias seguintes, os quatro policiais foram afastados das ruas, e a Corregedoria passou a investigar outro caso da tropa e ao menos 11 das 92 mortes registradas como confronto com a polícia entre 12 e 19 de maio. Em dezembro, o Ministério Público denunciou os quatro policiais e o empresário, e a Justiça os tornou réus. Os policiais disseram que foram baleados e revidaram.
Um ano depois dos ataques, Caramante mostrou, com base num levantamento da Ouvidoria das Polícias, que quatro jovens tinham desaparecido em maio de 2006 em circunstâncias que envolviam policiais. O corpo de só um deles tinha sido encontrado.
As reportagens:
- 17/05/2006: “Em 12 horas, polícia mata 33 suspeitos e prende 24”.
- 24/05/2006: “Homicídios crescem 8 vezes em Guarulhos”, com outra repórter da Folha.
- 25/11/2006: “PMs são suspeitos de simular tiroteio”.
- 28/11/2006: “PMs suspeitos de simular seqüestro são afastados”.
- 29/11/2006: “Rota é suspeita de simular mais tiroteios”.
- 01/12/2006: “Ação de PMs em 11 mortes é investigada”.
- 05/12/2006: “PMs suspeitos de simular seqüestro são denunciados” e, com a versão dos policiais, “PMs dizem que foram baleados e revidaram”.
- 06/12/2006: “PMs da Rota e empresário serão processados por mortes”.
- 12/05/2007: “1 ano após ataques, 3 estão desaparecidos”.
A Rota em vídeo (2011 e 2012)
Em 2011 e 2012, Caramante publicou reportagens apoiadas em vídeos de câmeras de segurança que contradiziam a versão da tropa.
“8 PMs da Rota são filmados ao misturar droga em tambor” (19/03/2011). Imagens das câmeras de segurança de um depósito de materiais de construção mostram oito policiais da Rota misturando num tambor um pó branco que disseram ser cocaína. As imagens foram usadas para revogar a prisão de quatro suspeitos de tráfico, e a Corregedoria da PM passou a investigar a quantidade e o grau de pureza da droga apresentada. Leia na Folha.
A “emboscada” no supermercado (2011). Em 5 de agosto de 2011, policiais da Rota e do 18º Batalhão mataram seis homens que tentavam roubar caixas eletrônicos de um supermercado na zona norte de São Paulo. Em 24 de agosto, Caramante mostrou que as comissões de direitos humanos da OAB e da Assembleia Legislativa iam acompanhar as investigações. Em 14 de setembro, revelou um vídeo de uma câmera de rua em que sete homens com uniforme da Rota chegam com calma aos fundos do supermercado antes da ação, o que reforçou a suspeita de emboscada. Na mesma edição, um major da reserva da PM, que comandou por 11 anos o grupo de ações táticas especiais da corporação, disse que, com trabalho de inteligência, a polícia poderia ter evitado as mortes. Leia na Folha.
Invasão ilegal de prédio pela Rota (2012). Doze câmeras de segurança de um edifício residencial em Praia Grande, no litoral paulista, flagraram policiais da Rota armados com pistolas e metralhadoras circulando pelo prédio de madrugada, sem amparo legal, atrás de um suspeito. A reportagem foi feita em parceria com o Agora SP.



As reportagens:
- 19/03/2011: “8 PMs da Rota são filmados ao misturar droga em tambor”.
- 24/08/2011: “OAB e Assembleia investigarão ‘emboscada’ em supermercado”.
- 14/09/2011: “Vídeo reforça suspeita de emboscada em mercado” (também na Folha.com) e “‘Com inteligência, polícia pode evitar crime’, diz major da reserva”.
As ameaças de 2012
Em 14 de julho de 2012, a Folha publicou a reportagem de Caramante “Ex-chefe da Rota vira político e prega a violência no Facebook”, sobre um coronel reformado, ex-comandante da tropa e então candidato a vereador, que usava a página dele para relatar supostos confrontos com civis. Depois da publicação, Caramante passou a receber ameaças de morte. O caso foi acompanhado por entidades de defesa da liberdade de imprensa, no Brasil e fora dele, e está contado no perfil de André Caramante.
Em dezembro de 2012, em entrevista à Folha, o coronel negou ter ameaçado o repórter e chamou a acusação de “uma grande mentira”.
Na TV Record, no R7 e na Ponte (2015 a 2017)
Na Record, Caramante continuou a acompanhar a tropa. Em julho de 2015, com outra repórter da emissora, mostrou a prisão em flagrante de dois policiais da Rota e de dois do 1º Batalhão de Ações Especiais, suspeitos de um atentado a tiros contra um jovem de 22 anos e de tentar matar quatro policiais militares em Sumaré, na região de Campinas. Em maio de 2016, revelou que policiais da Rota eram investigados sob a suspeita de torturar uma cabeleireira de 21 anos dentro da casa dela, na zona leste de São Paulo, atrás de informações sobre o namorado.
Em julho de 2017, na Ponte, com outro repórter, Caramante ouviu moradores do Jardim Peri, na zona norte de São Paulo, que acusavam a Rota de executar um homem de 35 anos dentro de casa, numa operação contra o tráfico. Os policiais registraram a morte como resistência à ação policial.
As reportagens:
- 10/07/2015: “PMs da Rota são presos após atentado contra jovem e tiroteio com outros policiais”, com outra repórter da TV Record.
- 23/05/2016: “Rota é suspeita de despir e torturar cabeleireira em SP”.
- 17/07/2017, na Ponte: moradores do Jardim Peri acusam a Rota de executar um morador, com outro repórter.
Fontes
- Folha de S.Paulo, 2006 e 2007: 17/05/2006, 24/05/2006, 25/11/2006, 28/11/2006, 29/11/2006, 01/12/2006, 05/12/2006, 05/12/2006, 06/12/2006, 12/05/2007.
- Folha de S.Paulo, 2011: 19/03/2011, 24/08/2011, 14/09/2011, 14/09/2011; Folha.com, 14/09/2011.
- Folha de S.Paulo, 2012: 14/07/2012 (reportagem de Caramante) e 28/12/2012 (entrevista feita por outro repórter).
- R7: 10/07/2015 e 23/05/2016.
- Ponte: 17/07/2017.
- Vídeos: canal de André Caramante no YouTube, publicados em 2011 e 2012.
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